Tolerância Zero
POR QUE TRABALHAR?

                     

Amigo leitor, isto não é uma apologia à preguiça. É muito bom trabalhar, produzir, e encontrar satisfação no que se faz.

Mas e quando você tem um emprego estressante, chato e que te irrita mais do que qualquer coisa? Já pensou que saco ter que acordar cedo todo dia para ir trabalhar e ter a sensação de estar em um purgatório?

Para algumas pessoas, a realização profissional vem através de atividades importantes, bem remuneradas, cheias de glamour, etc., etc., etc. Para outras, a realização (ou pelo menos, a relativa paz de espírito) vem através de atividades em que você não precise de forma alguma ATENDER ALGUÉM. Não sei se vocês sabem, mas o trabalho em qualquer tipo de atendimento vai desenvolvendo no infeliz que o exerce certos efeitos colaterais (melhor dizendo, sequelas), que com o passar dos anos vão se tornando mais evidentes:

- Irritabilidade. Tente falar como se fosse um cliente com um parente seu que trabalha em atendimento e prepare-se para a saraivada de palavrões e xingamentos que vão se suceder.

- Desatenção. Você fala e o tal parente simplesmente não te escuta. Fica divagando nos próprios pensamentos, entrando em alfa para se afastar espiritualmente de onde se encontra.

- Alienação. Após um tempo falando, você nota que seu tal parente cochilou.

Concordo: fazer todo dia a mesma coisa, seguir a mesma rotina é muito tedioso. Imagine se ainda por cima a tal rotina estiver recheada de clientes sem noção e com pouquíssima educação.

O que seria um emprego ideal neste caso? Escriturário em um cubículo cheio de papéis, um computador (sem msn) e nenhum telefone? Projecionista de sala de cinema? Recortador de figuras no Photoshop?

Não, meus caros. Aqui estão algumas atividades profissionais que com certeza alguém assim vai querer exercer:

- Alimentador de leões ferozes e famintos em zoológicos no Congo;

- Encarregado de recolher favos de mel de colméias de abelhas africanas;

- Animador de fila de banco;

- Digitador de bulas de remédios;

- Revisor gramatical de bulas de remédios;

- Carteiro no Afeganistão;

- Encarregado de manutenção da rede elétrica localizada em favelas do Rio de Janeiro.

Caso o digníssimo leitor não concorde, faça um teste. Trabalhe por 6 horas em um atendimento qualquer. Pode ser aquele serviço de atendimento ao consumidor, o SAC, por exemplo. Avise-me depois se você aceitou um emprego no Pólo Sul, e fez grandes amizades com a fauna local.

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O quinto dia útil

Tá bom, eis algo que se não é pior que casamento, chega bem perto. Fila de banco. E em quinto dia útil. Para quem não sabe, quase a totalidade dos trabalhadores de São Paulo recebe no quinto dia útil do mês. Muitos aposentados também. E aí vai todo mundo para a fila do banco. Não adianta a gente dizer que hoje em dia existe o auto-atendimento, a internet e os horários alternativos. A pessoa quer ir ao banco no horário comercial, com um monte de contas para pagar e para levar o restante do salário no bolso. Não adianta também a gente dizer que é arriscado, que no quinto dia útil está cheio de meliantes à espreita nos arredores da agência.

Hoje em dia só fica em fila de banco quem quer.  Acreditem: o auto-atendimento, a internet, o telefone, o débito automático, etc. não são instrumentos terríveis que o banco usa para roubar seu dinheiro. São facilitadores que poupam horas do SEU dia. Não, o funcionário do banco não vai perder o emprego se você começar a usar estes canais. Ele vai perder se você NÃO usar, hehehe. E acreditem também: o funcionário do banco ODEIA o quinto dia útil. Porque ele tem que ter sangue de barata, muitas vezes não consegue sair para almoçar, tem que se desdobrar para conseguir cumprir todas as suas tarefas e no fim do dia está com uma baita dor nas mãos e nos braços devido às horas de digitação ininterrupta. E é justo em um dia desses que você, pobre mortal, precisa ir ao banco para fazer justamente o único serviço que não pode ser feito no auto-atendimento, internet ou telefone. Chega na agência e tem vontade de chorar. Mas, querido leitor, jamais xingue o caixa do banco; ele, mais do que você, não vê a hora de se livrar daquele povo todo.

A propósito, há coisas que nunca se deve dizer a um caixa de banco. Mas isto é assunto para uma próxima oportunidade.

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